


Exibição do video-manifesto da V FAF POA/2025 e Roda de conversa sobre gentrificação e necropolitica.
No início de março rolou o Festival Cultive Resistência no Semente Negra, espaço anarquista cultural,
que partilha um território na Juréia-Itatins, Estação Ecológica que abrange um dos trechos mais bem protegidos e
preservados de Mata Atlântica. O local fica no bairro Guaraú da cidade de Peruíbe/SP.
O festival aconteceu durante três dias, com diversas trocas de ideias, atividades, y oficinas em uma proposta de autogestão e horizontalidade.
No primeiro dia de Cultive rolou a roda de conversa a partir da exibição do vídeo-manifesto da FAF sobre gentrificação e necropolítica.
A troca de ideias rolou como uma chamada pra partilha de vivências e lutas nos diferentes territórios das pessoas e coletividades presentes.
Tentamos coletivamente atravessar o que é necropolítica, não como conceito distante, mas como prática cotidiana: quem pode viver,
quem pode circular, quem é empurrade pra margem — ou pra fora dela. Durante a conversa, foi levantado pelo grupo presente que nos diferentes
territórios a necropolítica e a gentrificação está muito associada ao racismo ambiental; e a manutenção e perpetuação do poder na mão das classes mais altas,
de empresas e conglomerados, muitas vezes sustentados por aparatos políticos do Estado.
Levar esse material pro festival Cultive Resistência, em Peruíbe, abriu uma fresta importante, porque ali, diferente de um grande centro urbano,
a necropolítica se mistura com outras tensões: gentrificação avançando sobre o território, deixando o conflito cidade–campo cada vez mais evidente,
além da tentativa constante de apagar modos de vida que não cabem no projeto urbano hegemônico.
Uma moradora da localidade trouxe o relato sobre a luta daquelas pessoas em relação a modificações do plano diretor da cidade, que ano após ano tenta reduzir
as áreas de zona rural, como política de morte para aqueles que vivem da terra. O grupo partilhou a ideia de que certos territórios e existências não interessam para o poder,
a não ser quando se mostra como uma oportunidade de lucro, e que é necessário a organização entre as pessoas que habitam os territórios para que defendam seus modos de vida.
Teve também quem trouxe o cansaço da vida envolta na sobrevivência dentro do sistema capitalista, e a necessidade de produzir monetariamente para alimentar a si e aos seus,
e como esse processo dificulta a possibilidade de se organizar. Assim como a gentrificação também tem uma caráter importante de desmolibização e desvinculação das comunidades,
enfraquecendo as lutas de resistências das populaçãoes. A fala de quem veio de Mariana (MG) atravessou com a pergunta: como se mobilizar de verdade quando sobreviver já exige tudo?
E aí a gente foi puxando junto: talvez a resposta esteja menos na lógica da produtividade da militância e mais na reconstrução de vínculos. Viver pra retomar vínculo.
Reaprender as movidas do encontro, do estar junto, do se reconhecer como coletivo, para resistir em comunidade.
A questão da agroecologia apareceu nas falas como linha de fuga e também como disputa. Não é só sobre plantar — é sobre autonomia, território,
soberania alimentar e relação direta entre quem produz e quem consome. Um agricultor presente trouxe a dificuldade do escoamento de produtos feitos pelo pequeno produtor no campo,
e a necessidade de pensar organização de consumidores da cidade, que se auto-organizem na busca por produtos agroecológicos.
Romper com a cadeia que explora de um lado e adoece do outro, e deixa a responsabilidade para quem já cuida da terra, já planta, já colhe e ainda precisa levar até a cidade.
Foram lembrados também pequenos grupos de organização, simples e potentes como os chamamentos e as organizações de bairro.
Pode parecer pequeno, mas é por onde muita coisa começa e se fortalece. É infraestrutura de base, é rede viva.
E também veio o desejo de expandir o vídeo — fazer ele circular, criar vídeos como esse sobre outros territórios para criar uma estrutura onde diferentes
localidades possam se ver, se reconhecer, se escutar.
Fechamos o momento com a sensação de que falar de gentrificação e necropolítica não é só denunciar a morte, mas também mapear onde a vida insiste.
E, principalmente, como a gente se organiza pra sustentar essa vida fora das lógicas que nos querem isolades, cansades e descartáveis.
Você pode ver o Vídeo-Manifesto da Faf POA 2025 aqui:
https://kolektiva.media/w/vztVPGHH6A3wdh6okvZcA4: >> FAF POA NO CULTIVE RESISTÊNCIA!